Entenda tudo sobre o tumor benigno que afeta até 80% das mulheres e quando ele realmente precisa de tratamento
Você recebeu o diagnóstico de mioma uterino e ficou preocupada? Respire fundo. O mioma é o tumor benigno mais comum do útero e, na maioria dos casos, não representa risco grave à saúde.
Ainda assim, é natural surgirem dúvidas: “Preciso operar?” “O mioma pode virar câncer?” “Vou conseguir engravidar?” Este artigo foi escrito para responder essas e outras perguntas, com base nas diretrizes da FEBRASGO, FIGO e ACOG.
Conheça o Dr. Stéfano Adorno

Dr. Stéfano Adorno — ginecologista especialista em cirurgia minimamente invasiva para tratamento de miomas
O Dr. Stéfano Adorno é ginecologista especialista em cirurgia minimamente invasiva (histeroscopia, laparoscopia e cirurgia robótica) para tratamento de miomas uterinos, endometriose e demais condições ginecológicas. Atende em Manaus (AM).
CRM-AM 7447 • RQE 4424 (Ginecologia) • RQE 4521 (Endoscopia Ginecológica)
1. O Que é o Mioma Uterino?
O mioma uterino (também chamado de leiomioma ou fibroma) é um tumor benigno formado por células musculares e tecido fibroso que se desenvolve na parede do útero.
É extremamente comum: estudos indicam que até 70 a 80% das mulheres desenvolvem algum mioma ao longo da vida, embora a maioria nunca apresente sintomas e nem saiba que tem.
Os miomas são hormônio-dependentes — crescem sob estímulo do estrogênio e da progesterona. Por isso, costumam surgir e crescer durante a fase reprodutiva e regridem naturalmente após a menopausa.
Importante: o mioma é benigno. O leiomiossarcoma — tumor maligno da musculatura uterina — é uma doença distinta, e não a evolução de um mioma; sua ocorrência é rara, estimada em menos de 1 em cada 1.000 casos de tumores uterinos operados.

Útero com múltiplos miomas — condição chamada de miomatose, comum em mulheres na fase reprodutiva
2. Quais São os Tipos de Mioma? Classificação FIGO
A localização do mioma determina os sintomas e o tratamento mais adequado. A FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) criou um sistema de classificação (0 a 8) que orienta a conduta médica:

Classificação FIGO dos miomas uterinos — sistema de 0 a 8 conforme a localização em relação à cavidade e à parede uterina
- Submucosos (tipos 0, 1 e 2): crescem para dentro da cavidade uterina. São os que mais causam sangramento intenso e infertilidade — mas também os mais fáceis de tratar por histeroscopia
- Intramurais (tipo 3, 4 e 5): desenvolvem-se dentro da parede muscular do útero, sem contato com a cavidade. Podem causar sangramento e cólica dependendo da quantidade.
- Subserosos (tipos 6 e 7): crescem para fora do útero, na superfície externa. Costumam causar sintomas de compressão (dor pélvica, vontade frequente de urinar) sem afetar tanto o sangramento
- Tipo 8: localização especial — miomas cervicais, no ligamento largo ou parasitas

Útero com miomas em diferentes localizações — submucoso, intramural e subseroso
Essa classificação é essencial: um mioma submucoso pequeno pode ser removido por histeroscopia, sem cortes — enquanto um mioma subseroso grande pode exigir laparoscopia ou cirurgia aberta.
3. Quais São os Sintomas do Mioma Uterino?
Grande parte das mulheres com mioma não sente nada. Quando há sintomas, os mais comuns são:
- Sangramento menstrual intenso ou prolongado: o sintoma mais frequente, especialmente em miomas submucosos e intramurais
- Cólica menstrual forte (dismenorreia)
- Dor pélvica ou sensação de peso no baixo ventre
- Aumento do volume abdominal — em miomas muito grandes, pode simular uma gravidez
- Vontade frequente de urinar — quando o mioma comprime a bexiga
- Prisão de ventre ou dor ao evacuar — quando comprime o reto
- Dor durante a relação sexual (dispareunia)
- Dificuldade para engravidar ou abortos de repetição

Mioma submucoso que se projeta pela cavidade uterina, podendo chegar a se exteriorizar pelo colo — conhecido popularmente como “mioma parido”
4. Por Que o Mioma Aparece? Fatores de Risco
A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas os principais fatores de risco identificados são:
- Idade: mais comum entre 30 e 50 anos
- Histórico familiar: mãe ou irmã com mioma aumenta o risco
- Etnia: mulheres negras têm incidência 2 a 3 vezes maior, com miomas mais numerosos e sintomáticos
- Obesidade: maior produção de estrogênio pelo tecido adiposo
- Menarca precoce: maior tempo de exposição hormonal
- Nuliparidade: mulheres que nunca engravidaram têm risco elevado
- Hipertensão arterial
Por outro lado, gravidez, uso de métodos hormonais combinados e tabagismo parecem estar associados a menor risco de desenvolver miomas.
5. Como é Feito o Diagnóstico do Mioma?
O diagnóstico geralmente é feito durante consulta ginecológica de rotina, através de:
Exame Físico
Em miomas grandes, o próprio toque vaginal ou palpação abdominal pode identificar um útero aumentado e endurecido.
Ultrassonografia Transvaginal e Pélvica
É o exame de primeira linha — permite ver o número, tamanho e localização dos miomas com boa precisão.

Ultrassonografia evidenciando mioma subseroso na parede uterina
Ressonância Magnética
Indicada em casos mais complexos, especialmente para o planejamento cirúrgico de miomas múltiplos ou volumosos, ou para diferenciar mioma de adenomiose.

Ressonância magnética evidenciando mioma volumoso na parede uterina
Histeroscopia Diagnóstica
Permite visualizar diretamente miomas submucosos dentro da cavidade uterina, com grande precisão para avaliar viabilidade de remoção por via histeroscópica.
6. Mioma Precisa Sempre Ser Operado?
Não. A maioria dos miomas não precisa de tratamento cirúrgico. A decisão depende de três fatores principais:
- Presença de sintomas: se o mioma não causa sangramento, dor ou outros incômodos, muitas vezes a conduta é apenas observação com exames periódicos
- Tamanho, quantidade e localização: miomas pequenos, pequena quantidade e sem contato com a cavidade uterina costumam ser acompanhados
- Desejo reprodutivo: mulheres tentando engravidar podem precisar tratar miomas que comprometem a fertilidade, mesmo sem sintomas intensos
Miomas sem sintomas em mulheres próximas da menopausa, por exemplo, muitas vezes só precisam de acompanhamento — já que tendem a regredir com a queda hormonal.

Avaliação por imagem do tamanho e volume do mioma — fator importante na decisão entre observação e tratamento
7. Quais São as Opções de Tratamento?
Quando o tratamento é necessário, existem opções clínicas e cirúrgicas:
Tratamento Clínico (Medicamentoso)
Indicado para controle de sintomas, especialmente sangramento e dor, ou como preparo antes de uma cirurgia:
- Medicações não hormonais para controle do sangramento: reduzem o volume do fluxo menstrual;
- Métodos hormonais e DIU hormonal: reduzem o fluxo menstrual e controlam sintomas. Lembrando que o DIU hormonal é contraindicado para miomas submucosos (FIGO 0, 1 ou 2);
- Terapias hormonais de supressão temporária: reduzem o tamanho do mioma por período limitado, sendo úteis antes da cirurgia;
- Outras opções hormonais específicas: indicadas em casos selecionados, conforme disponibilidade e avaliação médica;
Miomectomia Histeroscópica
Indicada para miomas submucosos (FIGO 0, 1 e 2). O mioma é removido por dentro do útero, através do colo uterino, sem nenhum corte no abdômen.
- Recuperação rápida — a paciente volta para casa no mesmo dia
- Preserva completamente o útero
- Excelente opção para quem deseja engravidar

Visão histeroscópica de mioma submucoso vascularizado dentro da cavidade uterina
Saiba mais sobre como funciona esse procedimento em histeroscopia: o que é e como funciona.
Miomectomia Laparoscópica
Indicada para miomas intramurais e subserosos. Realizada com pequenas incisões no abdômen, permite remover o(s) mioma(s) preservando o útero.
- Menos dor e cicatrizes que a cirurgia aberta
- Recuperação mais rápida
- Indicada para quem deseja preservar a fertilidade

Miomectomia laparoscópica — remoção do mioma através de pequenas incisões no abdômen
Miomectomia Abdominal (Laparotomia)
Reservada para casos de miomas muito grandes, múltiplos ou de difícil acesso pela via minimamente invasiva. Envolve uma incisão maior no abdômen.

Miomectomia abdominal — remoção cirúrgica do mioma com preservação do útero
Embolização das Artérias Uterinas
Procedimento realizado por radiologista intervencionista, que bloqueia o fluxo sanguíneo do mioma, causando sua redução. Não é cirúrgico, mas não é indicado para quem ainda deseja engravidar.

Os miomas são ricamente vascularizados — princípio que fundamenta a técnica de embolização
Na embolização, um cateter é inserido através da artéria femoral até as artérias uterinas, onde pequenas partículas (agentes embólicos) são injetadas para bloquear o suprimento sanguíneo do mioma:

Esquema da embolização: cateter na artéria uterina libera agentes embólicos que bloqueiam o fluxo sanguíneo do mioma (fibroid)

Micro esferas de plástico bloqueiam a artéria uterina, interrompendo o suprimento sanguíneo dos miomas
Histerectomia
Retirada do útero. É considerada quando a mulher já não deseja engravidar, tem sintomas graves e refratários a outros tratamentos, ou miomatose muito extensa. É a única opção com resolução definitiva — o mioma não pode recidivar sem útero.
Independentemente da técnica escolhida, prepare-se bem: confira nossas 7 dicas para uma boa cirurgia.
8. Mioma e Gravidez: Dá Para Engravidar?
Sim — a maioria das mulheres com mioma engravida normalmente. O impacto na fertilidade depende principalmente da localização do mioma.
- Miomas submucosos: maior impacto negativo na fertilidade, pois distorcem a cavidade uterina e dificultam a implantação do embrião — geralmente indicados para remoção antes de tentar engravidar
- Miomas intramurais grandes: podem reduzir as chances de gravidez, especialmente se distorcerem a cavidade
- Miomas subserosos: geralmente não afetam a fertilidade
Durante a gestação, miomas podem crescer devido ao aumento hormonal, e em alguns casos causam dor (degeneração) ou risco de parto prematuro. O acompanhamento pré-natal cuidadoso é essencial nesses casos.
9. Mioma Uterino Pode Virar Câncer?
Esta é uma das dúvidas mais frequentes, e a resposta tranquiliza: o mioma é um tumor benigno e não se transforma em câncer.
O câncer relacionado à musculatura uterina, chamado leiomiossarcoma, é uma doença completamente diferente — não surge a partir da transformação de um mioma benigno. Sua incidência é muito rara, estimada em menos de 1 em cada 1.000 casos de tumores uterinos operados.
Sinais de alerta que merecem investigação mais cuidadosa incluem: crescimento rápido do mioma após a menopausa, ou crescimento muito acelerado em pouco tempo. Nesses casos, exames de imagem adicionais podem ser solicitados.
10. Mioma na Menopausa: O Que Esperar?
Como os miomas são hormônio-dependentes, a tendência natural após a menopausa é de redução do tamanho e melhora dos sintomas, já que a produção de estrogênio pelos ovários diminui drasticamente.
Por isso, miomas assintomáticos identificados perto da menopausa geralmente não precisam de tratamento cirúrgico — o acompanhamento costuma ser suficiente.
Atenção: o crescimento de um mioma após a menopausa (quando os hormônios já estão baixos) é um sinal de alerta e deve ser investigado prontamente pelo ginecologista.
Perguntas Frequentes sobre Mioma Uterino
Reunimos as dúvidas mais buscadas sobre mioma uterino. Se a sua não estiver aqui, entre em contato com o consultório.
Mioma dói?
Pode doer, dependendo do tamanho e localização. Miomas grandes causam sensação de peso e dor pélvica; miomas em degeneração (quando não recebem sangue suficiente) podem causar dor aguda intensa, especialmente na gravidez.
Mioma some sozinho?
Não desaparece completamente na maioria dos casos, mas tende a reduzir de tamanho na menopausa devido à queda hormonal. Enquanto a mulher está na fase reprodutiva, o mioma geralmente se mantém estável ou cresce lentamente.
Quantos tipos de mioma existem?
A classificação FIGO reconhece 9 tipos (0 a 8), agrupados em três categorias principais: submucosos, intramurais e subserosos, além de localizações especiais.
Mioma pode ser confundido com gravidez?
Miomas muito grandes podem causar aumento do volume abdominal semelhante ao de uma gravidez — por isso é essencial o diagnóstico correto por ultrassom, já que os sintomas de compressão podem ser parecidos.
Depois de operar o mioma ele pode voltar?
Sim, é possível o surgimento de novos miomas após a miomectomia (cirurgia que preserva o útero), especialmente se a mulher ainda estiver em idade reprodutiva. A histerectomia é a única forma de garantir que não haverá recidiva, pois remove o útero por completo.
Existe alimentação que ajuda a diminuir o mioma?
Não há evidência científica robusta de que algum alimento específico reduza o mioma. Uma dieta equilibrada e a manutenção de peso saudável ajudam a controlar níveis hormonais, o que pode ser benéfico de forma geral, mas não substitui o tratamento médico.
Mioma submucoso sempre precisa de cirurgia?
Na maioria dos casos sintomáticos, sim — especialmente se causa sangramento intenso ou infertilidade. A boa notícia é que o tratamento é feito por histeroscopia, sem cortes, com recuperação rápida.
Quanto tempo leva a recuperação da cirurgia de mioma?
Varia conforme a técnica: a histeroscópica tem recuperação em poucos dias; a laparoscópica, cerca de 1 a 2 semanas; e a abdominal (laparotomia), de 4 a 6 semanas.
Conclusão
O mioma uterino é uma condição extremamente comum e, na grande maioria das vezes, tratável — ou nem precisa de tratamento algum. O diagnóstico correto, com classificação adequada da localização, é o que define a melhor conduta para cada mulher.
Se você tem sangramento intenso, dor pélvica ou dificuldade para engravidar, não hesite em buscar avaliação especializada. Cada caso é único, e a decisão de tratar (ou apenas observar) deve ser sempre individualizada.
Você também pode se interessar por:
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- Saiba tudo sobre o DIU
- 7 dicas para uma boa cirurgia

Referências
• FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Mioma Uterino: Protocolo Assistencial, 2023.
• Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS, for the FIGO Working Group on Menstrual Disorders. FIGO classification system (PALM-COEIN) for causes of abnormal uterine bleeding. Int J Gynaecol Obstet. 2011;113(1):3-13.
• American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Management of Symptomatic Uterine Leiomyomas. Practice Bulletin No. 228, 2021.
• Stewart EA, et al. Epidemiology of uterine fibroids: a systematic review. BJOG. 2017;124(10):1501-1512.
• Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Leiomioma de Útero. Brasília, 2022.