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Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP): Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

Entenda a doença hormonal mais comum na idade reprodutiva — e por que ela está ganhando um novo nome no mundo todo

Você tem ciclos menstruais irregulares, acne persistente, queda de cabelo ou dificuldade para engravidar e já ouviu falar em Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)? Você não está sozinha: trata-se da doença endócrino-metabólica mais comum entre mulheres em idade reprodutiva, afetando cerca de 1 em cada 8 mulheres no mundo.

Este artigo foi atualizado com base nas diretrizes internacionais mais recentes — o International Evidence-based Guideline (ESHRE, ASRM e CRE-PCOS, 2023) e o protocolo da FEBRASGO — e traz uma novidade relevante: em maio de 2026, a SOP passou a ter, oficialmente, um novo nome científico. Explicamos tudo a seguir.

Dr Stéfano Adorno
Especialista em sop
Especialista em ovário policístico

Dr. Stéfano Adorno — ginecologista especialista em cirurgia minimamente invasiva e no diagnóstico e tratamento da SOP

O Dr. Stéfano Adorno é ginecologista especialista em cirurgia minimamente invasiva (histeroscopia e laparoscopia) e em implantes hormonais, com atuação no diagnóstico clínico e no tratamento — clínico e cirúrgico — da Síndrome dos Ovários Policísticos. Atende em Manaus (AM).

CRM-AM 7447 • RQE 4424 (Ginecologia) • RQE 4521 (Cirurgia Ginecológica)

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma condição hormonal e metabólica complexa, caracterizada pela combinação de três elementos principais: anovulação crônica (ciclos irregulares ou ausentes), excesso de hormônios androgênicos (hiperandrogenismo) e, em parte das pacientes, resistência à insulina. É considerada a endocrinopatia mais comum em mulheres na idade reprodutiva.

Em maio de 2026, um consenso internacional publicado na revista científica The Lancet — construído ao longo de mais de uma década, com a participação de mais de 14.000 pacientes e profissionais de saúde e 56 organizações médicas — definiu um novo nome para a síndrome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), chamada internacionalmente de Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS).

A mudança não é apenas cosmética. O termo “ovários policísticos” sempre gerou confusão: muitas pacientes com a síndrome não apresentam cistos verdadeiros — o que se vê no ultrassom são pequenos folículos antrais, e não cistos patológicos — enquanto outras têm ovários com aspecto “policístico” sem preencher os demais critérios da doença. O novo nome reforça que a condição é poliendócrina (envolve vários eixos hormonais) e metabólica (com impacto direto sobre resistência à insulina, peso e risco cardiovascular), e não uma simples alteração ovariana.

Ovário policístico
Ovário cheio de cisto
ovario policistico
SOP
SOMP

No ovário policístico, múltiplos pequenos folículos se acumulam na periferia — são folículos imaturos, e não cistos patológicos verdadeiros

A transição de nomenclatura deve ocorrer de forma gradual, ao longo dos próximos anos, à medida que diretrizes, prontuários e classificações internacionais de doenças forem atualizados. Por isso, neste artigo utilizamos SOP — ainda o termo mais reconhecido por pacientes e mais usado na prática clínica — e citamos SOMP/PMOS sempre que relevante.

O diagnóstico da SOP é clínico e de exclusão — ou seja, depende da presença de determinados achados e da exclusão de outras doenças que causam sintomas semelhantes. Desde 2003, o diagnóstico segue os Critérios de Rotterdam, reafirmados pela diretriz internacional de 2023: são necessários pelo menos 2 dos 3 critérios abaixo, após exclusão de outras causas (disfunção tireoidiana, hiperprolactinemia, hiperplasia adrenal congênita, síndrome de Cushing, entre outras):

  • Oligo ou anovulação: ciclos menstruais irregulares (intervalo maior que 35 dias) ou ausentes;
  • Hiperandrogenismo clínico e/ou laboratorial: presença de acne, hirsutismo ou alopecia de padrão androgênico, e/ou aumento de androgênios no sangue (testosterona total, testosterona livre, androstenediona);
  • Morfologia ovariana policística ao ultrassom: presença de 20 ou mais folículos antrais em pelo menos um dos ovários, ou volume ovariano igual ou superior a 10 cm³ — critério atualizado pela diretriz de 2023 em razão de equipamentos de ultrassom com maior resolução.
Critérios de Rotterdam
Menstruação irregular
Menstruação que atrasa
Sintomas da Sop
sintomas
sinais da sop
ovario policistico

Os Critérios de Rotterdam: o diagnóstico de SOP exige a combinação de pelo menos 2 dos 3 critérios

Importante: um ultrassom mostrando “ovários policísticos” isoladamente, sem irregularidade menstrual ou sinais de hiperandrogenismo, não fecha o diagnóstico de SOP. Até 25% das mulheres saudáveis podem ter esse aspecto ovariano ao exame de imagem.

A SOP é, por definição, um diagnóstico de exclusão. Isso significa que, antes de confirmá-lo, o ginecologista precisa descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes — ciclos irregulares e/ou sinais de hiperandrogenismo — e que exigem tratamento específico e diferente. As principais são:

  • Disfunções da tireoide (hipotireoidismo ou hipertireoidismo), avaliadas pelo TSH;
  • Hiperprolactinemia, avaliada pela dosagem de prolactina;
  • Hiperplasia adrenal congênita não clássica (deficiência de 21-hidroxilase), avaliada pela 17-hidroxiprogesterona;
  • Síndrome de Cushing, quando há sinais clínicos sugestivos;
  • Tumores secretores de androgênios (ovarianos ou adrenais), especialmente diante de hiperandrogenismo de instalação rápida e intensa.

Só depois de afastadas essas causas é que os achados de anovulação, hiperandrogenismo e/ou morfologia ovariana policística podem, de fato, ser atribuídos à SOP.

ovário normal vs ovário policístico
comparação de um ovário normal e o outro com sop
SOP
ovario policistico

Comparação esquemática entre um ovário normal e um ovário com morfologia policística

Como o diagnóstico exige apenas 2 dos 3 critérios, existem diferentes combinações possíveis — chamadas de fenótipos — com apresentações clínicas e prognósticos distintos:

  • Fenótipo A (clássico completo): anovulação + hiperandrogenismo + morfologia ovariana policística — forma mais associada à resistência à insulina e ao maior risco metabólico;
  • Fenótipo B (clássico): anovulação + hiperandrogenismo, sem alteração ovariana ao ultrassom;
  • Fenótipo C (ovulatório): hiperandrogenismo + morfologia ovariana policística, com ciclos ovulatórios preservados;
  • Fenótipo D (não hiperandrogênico): anovulação + morfologia ovariana policística, sem sinais de hiperandrogenismo — fenótipo mais brando, com menor risco metabólico.

As manifestações variam bastante entre as mulheres — e na mesma mulher ao longo da vida. Os sinais e sintomas mais comuns incluem:

  • Ciclos menstruais irregulares, espaçados ou ausentes
  • Hirsutismo: crescimento de pelos em padrão masculino (face, tórax, abdômen)
  • Acne persistente, geralmente resistente a tratamentos dermatológicos convencionais
  • Alopecia androgenética: afinamento de cabelo na região central do couro cabeludo
  • Dificuldade para perder peso ou ganho de peso, especialmente na região abdominal
  • Acantose nigricans: manchas escurecidas e aveludadas na nuca, axilas ou virilha — sinal de resistência à insulina
  • Dificuldade para engravidar, decorrente da anovulação
  • Alterações de humor, ansiedade e maior risco de sintomas depressivos
Sintomas da sop
principais sintomas 
Alopécia androgênica
queda de cabelo
hinsurtismo
pelo no rosto e no corpo
atraso menstrual
dificuldade de engravidar
ganho de peso

Principais sintomas da SOP: acne, hirsutismo, alopecia androgenética, irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar e alterações metabólicas

acantose nigricans
acantose
pescoço escuro

Acantose nigricans: mancha escurecida e de textura aveludada na pele, sinal cutâneo de resistência à insulina

A origem exata da SOP ainda não é totalmente compreendida, mas envolve a interação entre fatores genéticos (histórico familiar aumenta o risco) e resistência à insulina. O mecanismo central funciona assim:

  1. A resistência à insulina leva a níveis elevados de insulina circulante (hiperinsulinemia);
  2. O excesso de insulina estimula os ovários a produzir mais androgênios e reduz a produção hepática de SHBG (globulina carreadora de hormônios sexuais);
  3. Com menos SHBG circulando, mais testosterona fica livre e ativa no sangue, intensificando os sintomas de hiperandrogenismo;
  4. O desequilíbrio entre LH e FSH prejudica o recrutamento e a maturação normal dos folículos ovarianos, interrompendo a ovulação regular.
resistência insulinica
resistência a insulina

O ciclo da resistência à insulina: o excesso de insulina circulante retroalimenta o quadro metabólico e hormonal da SOP

A investigação combina avaliação clínica e exames complementares:

  • Dosagens hormonais: LH, FSH, testosterona total e livre, SHBG, 17-hidroxiprogesterona (para excluir hiperplasia adrenal congênita), prolactina e TSH;
  • Avaliação metabólica: glicemia de jejum, teste oral de tolerância à glicose (curva glicêmica de 2h), HOMA-IR, perfil lipídico;
  • Ultrassonografia transvaginal ou pélvica: avalia contagem de folículos antrais e volume ovariano.
ultrassom com ovário policístico
ovário policísitico
usg com sop
aspecto caixo de uva
ultrassom com sop

Ultrassonografia transvaginal evidenciando múltiplos folículos antrais dispostos perifericamente — aspecto sugestivo de morfologia ovariana policística

A SOP vai muito além dos sintomas visíveis. Sem acompanhamento adequado, está associada a riscos relevantes de saúde a médio e longo prazo:

  • Diabetes tipo 2 e diabetes gestacional — risco aumentado pela resistência à insulina de base;
  • Dislipidemia e hipertensão arterial, com maior risco cardiovascular ao longo da vida;
  • Esteatose hepática (fígado gorduroso), associada à resistência à insulina;
  • Apneia obstrutiva do sono, mais frequente em mulheres com SOP e sobrepeso;
  • Hiperplasia e câncer de endométrio: a anovulação crônica mantém o endométrio exposto ao estrogênio sem a proteção da progesterona, aumentando o risco a longo prazo — por isso o acompanhamento ginecológico regular, e eventual histeroscopia diagnóstica em casos de sangramento anormal, é importante;
  • Ansiedade, depressão e alterações da imagem corporal — a diretriz internacional de 2023 recomenda rastreio psicológico ativo em todas as mulheres com SOP.

Independentemente do fenótipo, a diretriz internacional de 2023 recomenda mudança de estilo de vida como primeira linha de tratamento, especialmente nas pacientes com sobrepeso ou obesidade:

  • Perda de 5 a 10% do peso corporal já é suficiente, em muitos casos, para restaurar ciclos ovulatórios espontâneos;
  • Atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina, independentemente da perda de peso;
  • Alimentação equilibrada, com atenção ao controle glicêmico;
  • Suporte à saúde mental, com acompanhamento psicológico quando necessário.
mulher malhando
academia
atividade física
musculação

Atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina, independentemente da perda de peso

dieta e atividade física na sop
dieta e sop
dieta controla a sop
alimentos bons para sop

Alimentação equilibrada e exercício físico formam a base do tratamento da SOP

Anticoncepcionais hormonais combinados são a primeira escolha para regularizar o ciclo menstrual e reduzir acne e hirsutismo. O DIU hormonal também pode ser usado para proteção endometrial em quem não deseja ou não pode usar estrogênio — veja mais em nosso guia sobre o DIU e sobre os implantes hormonais.

Antiandrogênicos (como a espironolactona) podem ser associados para tratar hirsutismo e acne resistentes — sempre em conjunto com um método contraceptivo eficaz, pelo risco de feminização de feto masculino em caso de gravidez.

A metformina é indicada nos casos com resistência à insulina comprovada ou intolerância à glicose, contribuindo para o controle metabólico e, em alguns casos, para a regularização do ciclo. O mio-inositol e o D-chiro-inositol têm evidências crescentes como adjuvantes, com bom perfil de segurança.

Para quem deseja engravidar, o letrozol é atualmente a primeira escolha para indução da ovulação, sendo mais eficaz do que o citrato de clomifeno segundo a diretriz internacional de 2023. O citrato de clomifeno permanece como alternativa, e casos refratários podem necessitar de gonadotrofinas ou fertilização in vitro.

Em casos selecionados de infertilidade anovulatória resistente à indução medicamentosa, o drilling ovariano por videolaparoscopia — pequenas perfurações no córtex ovariano que reduzem a produção androgênica local — é uma opção cirúrgica minimamente invasiva. Antes de qualquer procedimento, vale conferir nossas 7 dicas para uma boa cirurgia.

A anovulação é a principal causa de dificuldade para engravidar em mulheres com SOP — mas a maioria consegue gestar, seja espontaneamente, seja com apoio de indução da ovulação. Durante a gestação, há risco aumentado de diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, o que exige acompanhamento pré-natal mais próximo.

A qualidade dos óvulos tem papel fundamental na formação de um embrião saudável. Mulheres com SOP costumam ter uma reserva ovariana maior, com mais folículos disponíveis — mas alguns estudos mostram que a qualidade desses óvulos pode estar reduzida, um efeito que se acentua com o avanço da idade (fonte).

Isso acontece porque os desequilíbrios hormonais característicos da SOP interferem na maturação e na liberação dos óvulos durante o ciclo (fonte). Como o sucesso da fertilização, do desenvolvimento do embrião e da implantação depende diretamente da qualidade do óvulo, esse é mais um motivo para que mulheres com SOP que desejam engravidar — especialmente após os 35 anos — busquem avaliação e acompanhamento especializado o quanto antes.

dificuldade de engravidar
sop e infertilidade
gravidez e sop

Óvulos de qualidade inferior têm menos chances de fertilizar com sucesso, formar um embrião euploide e implantar-se adequadamente

Em adolescentes, o diagnóstico deve ser feito com cautela redobrada: ciclos irregulares são fisiológicos nos primeiros dois anos após a menarca, e os ovários costumam apresentar aspecto multifolicular normal ao ultrassom nessa fase. Por isso, a diretriz internacional de 2023 recomenda que, em adolescentes, o diagnóstico exija irregularidade menstrual persistente por mais de dois anos após a menarca associada a hiperandrogenismo, evitando-se basear o diagnóstico apenas no achado ultrassonográfico.

Reunimos as dúvidas mais buscadas sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos. Se a sua não estiver aqui, entre em contato com o consultório.

Não existe uma cura definitiva, mas a SOP tem excelente controle com tratamento adequado — hormonal, metabólico e de estilo de vida — permitindo qualidade de vida normal e possibilidade de gravidez.

Não necessariamente. Como o diagnóstico exige apenas 2 dos 3 critérios de Rotterdam, é possível ter SOP com ultrassom normal (fenótipo B), assim como ter ovários com aspecto policístico sem ter a síndrome.

A SOP está associada à resistência à insulina, o que pode dificultar a perda de peso e favorecer o acúmulo de gordura abdominal — mas nem toda mulher com SOP tem sobrepeso; o fenótipo magro também existe.

Sim. A maioria das mulheres com SOP engravida, seja naturalmente, seja com auxílio de indução da ovulação. O acompanhamento especializado aumenta as chances e reduz riscos gestacionais.

O anticoncepcional regula o ciclo e melhora acne e hirsutismo, mas não trata a causa metabólica da síndrome. Por isso, mudanças de estilo de vida e, quando indicado, metformina, seguem sendo importantes.

Sim. SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina), ou PMOS em inglês, é o novo nome científico adotado internacionalmente em 2026 para a condição até então chamada de SOP — os critérios diagnósticos e o tratamento não mudaram.

A Síndrome dos Ovários Policísticos — em breve também reconhecida como Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) — é uma condição comum, tratável e que exige olhar amplo: hormonal, metabólico, reprodutivo e emocional. O diagnóstico correto e o acompanhamento individualizado fazem toda a diferença na qualidade de vida.

Se você tem ciclos irregulares, acne persistente, hirsutismo ou dificuldade para engravidar, não hesite em buscar avaliação especializada. Cada caso é único, e o plano de tratamento deve ser sempre personalizado.

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